Category: Divagações

Perturbações da mais terna (ou seria tenra?) infância

Criança tem um jeito simples e sincero de constatar as coisas. Infelizmente, é desde criança que vamos sendo inseridos num universo que faz questão de ignorar incoerências sempre que elas, de alguma maneira, ameaçam o nosso bel-prazer. É mais fácil seguir o fluxo, que nos ensinou que sempre foi assim. À noite, povoam nossa imaginação com estórias repletas de bichinhos pelos quais torcemos e desenvolvemos empatia. Era uma vez… e o vínculo foi criado, conscientes nós ou não. No almoço do outro dia: lombinho… e lá se foram os três porquinhos. De terna (infância) para tenra (carne) é uma letra, que determina o destino do ser vivo: virou nada. Concordo com a Alana. “Que tristeza, né?”

Netnografia de fim de semana

Na internet, a consciência é um lapso que dura entre um post no Facebook e outro. “O planeta terra está morrendo”, diz o vídeo que todos curtem. “Comece mudando a si mesmo”, completa, e muitos compartilham. O texto é tocante, as imagens tristes, porque não dizer revoltantes. Uma revolta que desencadeia numa série de comentários em concordância ao conteúdo do vídeo e termina de maneira abrupta no próximo post: a foto do churrasco de domingo. Prova incômoda de que as pessoas até se comovem, mas estão pouco  dispostas a coexistir quando qualquer um de seus hábitos é questionado. É legal dividir boas ideias. Difícil mesmo é romper com o breve espaço de tempo que separa a próxima postagem da lembrança de que o churrasco de domingo também é resultado da lógica da crueldade e do egoísmo expostos no vídeo. O ativismo pode até ser digital, mas as atitudes precisam ultrapassar a tela do computador.

Essas pessoas da sala de jantar, que muitas vezes, somos nós

Desde que parei de comer carne, há mais ou menos 8 meses, tenho questionado de maneira constante algumas de minhas certezas mais profundas. Nesse tempo descobri, não sem os incômodos que revirar o baú das convicções trazem, que sempre que somos tocados por uma nova verdade temos dois caminhos: ou a ignoramos e seguimos adiante, confortáveis “do alto dos nossos postos da civilização desenvolvida”, ou assumimos o peso de nossas escolhas com tudo de bom e de difícil que elas têm a oferecer.

Essa semana, ao trabalhar em sala o texto “Os Nacirema”, de A.K. Ronney e L.P. Vore, foi possível confirmar a ideia de que aceitamos velhos hábitos como pressupostos naturais da existência. Acreditamos na soberania de nossas decisões e, convictos de de que somo livres, mal percebemos que tais escolhas não passam, muitas vezes, de repetições maquínicas que aprendemos desde a infância. É assim porque sempre foi e sempre será. Assunto encerado e nada com o que se preocupar.

Com isso, vamos acumulando “aquelas velhas opiniões formadas sobre tudo”, ao ponto de se tornarem verdades e nos transformarem, elas mesmas, no teor de seus conteúdos. Impossível não lembrar da famosa cena do filme “O fantasma da liberdade” (1974), de Luis Buñuel, onde os convidados sentam-se à mesa para fazer suas escatologias e dirigem-se à solidão do banheiro quando querem alimentar-se.

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Essa simples inversão de situações, e o absurdo inicial contido nelas, demonstram o quanto estamos presos a velhos hábitos. Costumes não questionados que preferimos entender como naturais do que colocá-los a prova. Na verdade, aguardamos anciosos por todos os benefícios de uma grande mudança, tanto quanto não estamos dispostos a lidar com as transformações necessárias para realizá-la ou que dela surgem.

“O anjo exterminador” (1962), também de Buñuel, é outro exemplo desse pensamento. No filme, um grupo de pessoas não consegue sair da sala de jantar apesar de nada aparentemente as impedir. A imobilidade das personagens, nesse caso, deve-se a mais pura e simples convenção social, da qual nem elas se dão conta.

E aí, o que temos de livre? O arbítrio? Isso vale de algo quando nossas escolhas parecem ter sempre um fundo que é exterior a nós mesmos? Assim, somos livres para seguir os costumes impostos e para não questionar a ordem que pretende-se natural das coisas. A verdadeira liberdade, porém, vem da reflexão profunda sobre nós mesmos e daquilo que escolhemos além da comodidade e da conveniência. E isso só acontece quando nos permitirmos ser sensibilizados pelo conhecimento. Metafóricamente, precisamos ter a capacidade de sair da sala de jantar.

 

O subtexto vegetariano em Pi e Cloud Atlas

Esse texto contém spoilers

Embora Pi e Cloud Atlas não sejam filmes específicos sobre vegetarianismo, é possível perceber em ambos um subtexto relacionado ao tema. Em Pi, vencedor de 4 Oscars, isso é mais evidente, uma vez que seu protagonista, o qual dá nome ao título, é vegetariano. Em Cloud Atlas, porém, essa perspectiva está presente nas entrelinhas da história de Sonmi-451, a qual revela uma dinâmica de consumo baseada num canibalismo forçado e inconsciente.

Perdido em alto mar com um macaco, uma zebra, uma hiena e um tigre, Pi vê-se obrigado a contrariar suas próprias crenças. Numa relação simbólica muito bem construída, ele representa na narrativa o próprio tigre. Durante toda sua jornada vê-se obrigado a ser o felino, adotando uma dieta carnívora para não morrer de fome. Porém, não faz isso sem estabelecer um embate físico e psicológico com seu animal interior. E o faz com tamanha consciência, que em nenhum momento escapa do sofrimento causado pela consequência de suas escolhas.

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No meu caso, e acredito que no de muitos que decidem parar de comer carne por questões éticas e filosóficas, essa é uma analogia que faz todo sentido. Mesmo não estando em alto mar e em uma situação extrema, constantemente temos que lidar com o tigre que nos ensinaram a ser. E digo ensinaram pois, desde crianças, aprendemos a ser carnívoros como algo natural, e não como uma escolha. Talvez venha daí o choque de algumas pessoas quando escutam as palavras: “Sou vegetariano”.

Em Pi, tudo isso ganha um toque semiótico de rara beleza, mas a problemática como um todo está presente tanto em imagens como nos diálogos. Já em Cloud Atlas, esse subtexto está quase que escondido na história de Sonmi-451, uma clone humana fabricada em série para trabalhar em tarefas consideradas inferiores, num futuro que em muito faz lembrar o “admirável mundo novo” de Huxley. Na cena que desencadeia a revolução pela libertação de sua “espécie”, Sonmi-451 vê suas companheiras serem brutalmente abatidas em uma espécie de frigorífero flutuante, no qual os clones são transformados em ração para alimentar outros clones e clientes da lanchonete onde ela era escrava.

Estão nos alimentando com nós mesmos! – Constata Sonmi-451.

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Não vou entrar aqui no mérito que, há tempos, rações avícolas vêm sendo incrementadas com os restos mortais das próprias aves, como ossos e penas moídos, forçando animais naturalmente vegetarianos a se tornarem canibais. Contudo, é impossível não estabelecer uma relação desse trecho da história com a lógica da crueldade contra os animais no atual sistema industrial onde tudo se justifica pela maximização dos lucros. E nesse caso, vale lembrar o discurso da própria Sonmi-451, o qual dá início à revolução:

 Nossas vidas não pertencem somente a nós. Estamos unidos aos outros no passado e no presente. E com cada crime, e a cada gentileza, traçamos nosso futuro.

Abaixo os trailers dos filmes. Mesmo que você não seja vegetariano, ambos valem muito a pena 😉

http://www.youtube.com/watch?v=73ZIzZfpqlo

http://www.youtube.com/watch?v=h5nJkpEvNjE

Pode um hábito de consumo, ser um hábito de protesto?

Ufa! Depois de um mês pra lá de turbulento e mais de 75 dias sem comer carne, volto a escrever. Confortável e feliz com a minha decisão. Depois de vários churrascos com os amigos, almoços em família e cafés da manhã na padaria, não ter sucumbido a constante tentação de um hábito historicamente adquirido e a mim vendido de forma quase tão natural como respirar, me faz sentir moralmente adequado. As pequenas escolhas que tenho que fazer no simples trajeto que traspassa o buffet do meio dia, ou diante das prateleiras do supermercado, parecem despertar em mim um senso de responsabilidade sobre a vida muito maior. É incrível como um simples hábito de consumo, ou de não consumo, é capaz de se tornar uma espécie de protesto contra aquilo que não faz mais sentido.  Tal qual a música que embalava os acampamentos da minha adolescência, acho que estou entendo como disciplina pode ser liberdade. Não aquela disciplina ordeira que tentam nos ensinar em casa, na escola ou em qualquer espaço representativo de poder. Mas uma disciplina que nasce da consciência de si, e do respeito por essa consciência. No mais, sigo na busca da coerência.

Eu, Ricardo Sékula, vítima da antropofagia do consumo

“Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Philosophicamente. Unica lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os colletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz”.

É assim que começa o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (1928). Bons anos atrás, quando li pela primeira vez o texto, não tive total noção de sua profundidade, muito embora, já na época, tivesse proporcionado a mim boas reflexões. Há algumas semanas, quando retomei o texto para uma aula de Comportamento do Consumidor, uma nova perspectiva se apresentou.

Com a ideia de me tornar vegetariano cada vez mais presente e a realização de novas leituras sobre o consumo e suas dinâmicas, evidenciou-se para mim uma perspectiva da antropofagia simbólica a qual as diferentes indústrias, para não dizer ditaduras, do consumo nos submetem. E nesse contexto, a indústria da carne, seja talvez a mais bem articulada e devastadora, pois nem se quer se apresenta para nós como tal.

Assim como os europeus que chegaram às Américas, e incapazes de comer o corpo morto, devoraram-no vivo, estraçalhando e subjugando toda a cultura indígena, as grandes indústrias do consumo parecem, a todo momento, fazer o mesmo com seus consumidores, dizendo-lhes o que devem ou não ter, desejar, acreditar. A propaganda naturaliza muito bem tais costumes, mostrando-se exemplar aluna de Padre Vieira.

Mas “o espirito recusa-se a conceber o espírito sem corpo”. E nesse sentido, uma nova perspectiva emerge: não do eu como parte do cosmos, mas do cosmos como parte do eu. Digo isso, como disse Mafesolli, “confiando que certas considerações ‘inaturais’ podem ser perfeitamente adequadas ao seu tempo”. Enfim, uma noção de pertencimento a qual já não cabem mais determinadas escolhas.

Faço então o meu carnaval sem culpa, com “a experiência pessoal renovada”. Um manifesto de não consumo (por enquanto, da carne). Das antropofagias a mim dirigidas, seguirei apenas com as que não se apresentarem à luz de uma nova consciência.

Leia o Manifesto Antropófago completo aqui: http://www.fafich.ufmg.br/manifestoa/pdf/manifestoa