Category: Indignações

Boff, o piadista em: carne e circo para o povo

boff

Há algumas semanas o teólogo, filósofo, escritor e professor universitário, entre outras atividades que acumula, Leonardo Boff, esteve em Chapecó para uma palestra na UFSS, com o tema “O meio ambiente e a educação”. Infelizmente não pude estar presente, devido a compromissos anteriores. Porém, teve um pessoal de um grupo do qual faço parte – Vegetarianos do velho oeste – que conseguiu dar uma passadinha por lá.

Confesso que não sou um grande conhecedor da vida e obra de Boff, porém, me identifico com os discursos com os quais tive a oportunidade de ter contato. Seus estudos trazem reflexões sobre a ética, a ecologia e a espiritualidade. Além disso, Boff é uma figura politicamente engajada e um dos responsáveis pela consolidação da Teologia da Libertação, a qual interpreta os ensinamentos de Cristo com foco na libertação de injustiças sociais, políticas e econômicas.

Com um currículo e um discurso desses, era inevitável a curiosidade em saber se ele, Leonardo Boff, era vegetariano. Isso porque, dentro das questões que transpassam temas como sustentabilidade, ética e política social é impossível deixar de lado a discussão sobre o consumo da carne. Primeiro pelo fato da indústria da carne ser hoje uma das principais causas do desmatamento de matas nativas, segundo pelas discussões cada vez intensas em relação à crueldade imposta pelas agroindústrias aos animais e seus direitos, terceiro por motivos que descrevi no texto “Não, não é só pelos animais”, dois posts abaixo.

Bem, algumas pessoas do grupo foram lá e, citando dados da ONU sobre desmatamento e poluição, pesquisas de neurociência que confirmam a consciência dos animais e parte da Carta da Terra (que ele ajudou a escrever), perguntaram se ele era vegetariano. A resposta dada por Boff não poderia ser mais ridícula. Apesar de admitir que a consciência das pessoas esta cada vez maior nesse sentido e que o vegetarianismo é o nosso futuro, ele tem um bom motivo para continuar comento carne: quanto mais churrasco ele comer, menos boi produzindo gás metano haverá, contribuindo assim para menos emissões de gases tóxicos no planeta.

A minha reação à resposta do Boff

Não vale a pena nem entrar aqui na total falta de lógica e sensatez da resposta. Qualquer pessoa minimamente informada, e acredito que o próprio Boff, hão de concordar que é um argumento vazio e infundado, utilizado apenas como recurso de circo para distrair a platéia. E funcionou muito bem, uma vez que praticamente todo auditório riu e aplaudiu.

Não tenho nenhum problema em fazer piada com a condição vegetariana/vegana. Eu mesmo vivo fazendo piada sobre situações que preciso enfrentar desde que decidi parar de comer carne. Porém, fico imensamente incomodado quando um pensador do nível do Boff, em um espaço onde se propõe a discutir meio ambiente e educação, tire o foco de uma questão tão importante em prol do riso fácil, recurso que a máquina capitalista, também criticada por Boff, sabe se utilizar muito bem. E além de tudo, para fazer uma piada ruim. Pior que essa acho que só aquela de que vaca é pasto processado. Seria mais bonito admitir a própria incoerência entre discurso e prática, e dizer que come carne porque gosta.

Termino com as belas palavras do próprio Boff, feliz em estar colocando-as em prática.

O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro.

Não, não é só pelos animais

Enquanto aproximadamente 870 milhões de pessoas passam fome no mundo (12,5% da população mundial, segundo dados da FAO), cerca de 465 milhões de toneladas de grãos é utilizada para alimentar gado de corte. Não encontrei os números absolutos para a alimentação de suínos e aves, porém, das 40 milhões de toneladas de milho produzido no Brasil, 28% vai para alimentação de porcos, por exemplo.

Com esses dados, não é difícil deduzir que um grande percentual dos grão produzidos mundialmente não são utilizados para alimentar pessoas, mas sim, animais que fazem parte da indústria da carne. “-Ah, mas esses grãos acabam virando comida mesmo”, vai dizer algum engraçadinho. Não, não é bem assim.

Primeiro por uma questão nutricional. Os grãos oferecem muito mais energia e benefícios aos seres humanos quando consumidor diretamente. Segundo porque a distribuição feita pela industria da carne é altamente concentrada. Os EUA e a China, por exemplo, que juntos correspondem a 25% da população mundial, consomem 35% da carne bovina do planeta, 50% da carne de frango e 65% da carne suína. Ou seja, toda essa produção de grãos citada acima serve para alimentar animais que, no final, vão alimentar apenas um percentual de outros animais, nesse caso, norte americanos e chineses.

Um estudo apresentado na Sociedade Vegetariana Brasileira aponta que “se somente 0,3 % das 465 milhões de toneladas de grãos utilizados para alimentar o gado fossem utilizados diretamente para alimentar seres humanos, isto seria suficiente para salvar da desnutrição 6 milhões de crianças menores de 5 anos. Apenas 2,5% deste total seria suficiente para acabar com a fome no Brasil e 50% deste total seria suficiente para acabar com a fome no mundo.”

Por isso fico puto (e não vou pedir o perdão da palavra, pois a sensação é essa mesma) quando alguém insinua que, com tanta gente passando fome no mundo eu deveria me preocupar primeiro com o sofrimento dos seres humanos, ao invés dos animais. Se os dados acima não deixam claro o quanto minha decisão de não comer carne tem relação direta com questões como essa (e nem entrei nos méritos da sustentabilidade, pois isso rende outros posts), sigo apenas fazendo a minha parte. E deixo vocês com Gandhi.

gandhi

Algumas fontes: (1) http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/10/quase-870-milhoes-de-pessoas-passam-fome-no-mundo-diz-fao.html; (2) http://www.svb.org.br/depmeioambiente/VegetarianismoeCombateaFome.htm; (3) http://pecuaria.ruralbr.com.br/noticia/2012/12/industria-de-alimentacao-animal-estima-producao-de-62-milhoes-de-toneladas-de-racao-em-2012-3975693.html; (4) http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-09352011000100031&script=sci_arttext

A lógica capitalista da crueldade

Um dos motivos que me fez deixar de comer carne, e que cada vez mais me leva para uma redução do consumo de produtos de origem animal, é o processo brutal ao qual a indústria submete porcos, galinhas, bois, vacas e outros bichos. Além das condições grotescas com que são obrigados a sobreviver para satisfazer um hábito alimentar dito natural, esses animais ainda tornam-se vítimas da lógica capitalista da cruedade.

Hoje descobri a cânula ruminal, uma técnica digna das eras medievais e que, sob a carapuça da ciência e da tecnologia, vai ajudar a indústria da carne a ganhar mais dinheiro. O processo dá, literalmente, acesso permanente ao estômago de vacas e outros bichos, com o objetivo de analisar processos nutricionais e maximizar a produção de carne e de leite.

Ou seja, não bastasse a quantidade de bichos mortos a cada dia e todas as consequências para a saúde e para o meio ambiente já causadas por esse tipo de consumo, eles ainda encontram maneiras de tornar o processo mais penoso para os animais. As imagens falam por si só, mas quem quiser conhecer um pouco mais da técnica, tem informações em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-70542009000700060

As complicações desse método são variadas, de lesões na pele até a desidratação e desnutrição devido ao vazamento do líquido ruminal. Achou um absurdo? Lembra disso no próximo churrasco!

canula