Category: Relatos

Amélie cheiradora

É incrível o quanto nosso repertório de cores, cheiros e sabores aumentam depois de cortar a carne da dieta. Embora as memórias visuais, olfativas e gustativas não se apaguem – sim, às vezes ainda salivo quando algum vizinho resolve fazer churrasco ou dou de cara com um lombinho no buffet -, novas vão se formando. Dá gosto ver a geladeira/fruteira bem coloridas quando se volta da feira. Dá ainda mais gosto sentir os cheiros que vão tomando conta da casa quando se começa a cozinhar. E a variedade de sabores então? Uma riqueza só. Legumes, verduras, grãos e temperos em combinações e recombinações  que vão criando texturas e paladares pra lá de gostosos. Aqui em casa a Amélie, que mora na cozinha, faz questão de participar de todas essas sensações. Sempre com um sorriso no rosto.

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Mais de um ano depois, já faz mais de dois anos

Mais de um ano se passou desde o último post (vix!) e mais de dois desde que me tornei vegetariano (ok, ovolacto, pra usar o termo certo). Devo confessar que as tentações da carne continuam constantes, principalmente nos almoços de domingo com minha família. O cheiro do churrasco vem carregado de lembranças e apresenta-se sempre como uma grande provação para as papilas gustativas. Apesar disso, sigo firme (e convicto) no propósito de não comer carne, e já diminui em muitos porcentos o consumo de leite. Dentre as novidades da rotina está a mudança para Florianópolis, uma cidade onde a causa vegetariana/vegana parece ter maior respaldo e possibilidades. Uma das coisas que tenho feito e que tem me dado imenso prazer culinário é almoçar na feirinha da UFSC às quartas-feiras. Além da ótima companhia (geralmente vou com a Adri e com a Amanda), é possível degustar salgados e doces diversos sem nada de origem animal. Recomendo especialmente os hambúrgueres de grão de bico ou lentilha das barraquinhas indianas, o pastel de mandioquinha com couve (com leve tom apimentado) e, é claro, o suco natural de laranja com cenoura ou o caldo de cana das barraquinhas que ficam perto do pastel de feira. Também tem bolos deliciosos de maçã com canela, banana, chocolate, cenoura, brownies e por aí vai. É só dar uma circulada e muita opção sem carne se apresenta pra você. Depois, é estender a toalha embaixo de uma sombra a aproveitar o almoço e as músicas, trocando uma ideia e observando o povo que passa. Quem quiser, está convidado 😉

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Vegetariano de primeira viagem

Depois das merecidas férias, dou início aos trabalhos de 2013. Os dias no deserto foram intensos e reflexivos. As minhas paranóias de não encontrar opções vegetarianas pelo caminho e ter que acabar atacando uma lhama ou uma vicuña para não morrer de fome não se confirmaram. Aliás, comi muito bem, obrigado! Em San Pedro de Atacama a grande maioria dos restaurantes tem opções vegetarianas no cardápio e, no menu do dia, sempre consta algum prato sem carne por um preço mais em conta. Foi lá que comi uma “ensalada andina” à base de quinoa pra lá de deliciosa e a melhor massa ao pesto da minha vida.

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Bananas bolivianas, Atacama

Na Bolívia, mesmo com um roteiro mais roots, já que não tínhamos uma parada fixa, deu pra sobreviver bem comendo no caminho, em meio a paisagens devastadoramente belas. Sempre tinha opções sem carne e vários tipos de saladas. Além disso, as bananas jamais faltaram, demonstrando-se fiéis companheiras alimentícias e provendo uma energia extra para aguentar o tranco. Eu e a Fran, companheira e escudeira de viagem, sempre carregávamos algumas na mochila.

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Mercado público, Santiago, Chile

Em Santiago fomos salvos mais de uma vez pelas deliciosas ameixas, degustadas com prazer em baixo da sombra de alguma árvore, em algum parque qualquer. Já em Buenos Aires e Montevideu não teve jeito, tive que resistir bravamente às tentações dos famosos assados e partir para as massas, sanduíches e feiras de rua. Mas essa foi a parte fácil. Difícil mesmo foi ficar sem feijão. Adivinha qual foi a primeira coisa que tratamos de pedir quando chegamos no Brasil? Agora, já posso fazer aquela piadinha em versão vegetaria:

_E aí, gosta mais do pai ou da mãe?

_De feijão!

Feira de rua, Montevideu, Uruguai

Feira de rua, Montevideu, Uruguai

Só fiquei sem opções mesmo no avião. Vegetariano de primeira viagem que fui, não sabia que é possível pedir opções de comida sem carne na hora em que se compra a passagem. Mas essa é a única maneira de garantir o pão nosso de cada vôo sem presunto. Se não informar na hora da compra, nada feito. Nas compras online, porém, eu não encontrei nenhuma área para colocar essa informação. Então, se alguém souber, me avisa. E desde já fica a dica para as companhias áreas: com o público vegetariano crescendo cada vez mais, não custa colocar um ícone bem visível na hora do preenchimento para indicarmos que não comemos bicho morto.

Dias veganos em São Paulo

Encontrar o Douglas e a Vanessa é sempre uma comoção. Dias intensos de muito amor e gritaria, regados ao melhor da cozinha vegana. Cada refeição, do café da manhã ao jantar, passando por almoços e brunchs, é um verdadeiro composto de saborosos ingredientes e diálogos afiados.

Os anos de amizade, que tanto nos fizeram conhecer uns aos outros, permitem não apenas a profundidade dos mais belos existencialismos, mas as alegrias das mais deliciosas sabotagens. A arte de jogar verdades na cara se mistura com a arte da boa culinária, sempre preparada com um imenso respeito pelas composições de gustativas e estéticas.

Uma deliciosa geléia de amoras com suco natural de tangerina, preparada entre confissões de amor profundo, tem um sabor todo diferente. Pesto de salsa, azeitonas temperadas, alcachofra com macadâmias, tomates com abobrinha e cebola ao forno, batatas fatiadas, abacalhoada de soja e outros quitutes tornaram os dias que estive em São Paulo muito mais saborosos.

Tudo isso, sem nada de origem animal. Momentos à mesa que vão deixar saudades no coração e um vazio no estômago. Para resolver esse problema, o jeito é ir para cozinha recriar alguns pratos para manter viva a memória. Para quem quiser me acompanhar, deixo abaixo as receitas repassadas pelo Douglas, do pesto e da geléia, carinhosamente apelidada de ximia.

-Mas por favor, dos dois lados do pão, porque os dentes de baixo também gostam de doce!

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Pesto de salsa: Um maço de salsa, um limão siciliano, macadâmias tostadas, sal, pimenta e muito azeite extra virgem. Bate tudo e vai ser feliz.

A ximia, irmã colona da geléia: Amoras batidas com açúcar e suco de tangerina natural. Leve ao fogo com um toquinho de cardamomo.

Etiqueta à mesa, ou, o caso do salame indecente

-Michelle, não mostra o salame na mesa que ele é vegetariano – disse a Ana correndo da cozinha para sala, na tentativa de impedir aquilo que considerava uma terrível gafe culinária. Era fim de tarde de sábado chuvosa e a mesa estava posta de frente para a sacada, com uma agradável vista para o horizonte. Pão de milho quentinho com melado, café, ximia de figo e outras guloseimas. O salame, devidamente camuflado em um saquinho de tecido para que eu, que há alguns meses não como carne, não fosse tentado pelos velhos hábitos. Uma cômica gentileza da qual não pudemos deixar de rir.

Confesso que o salame é, das iguarias do mundo carnívoro, uma das que mais sinto falta, principalmente quando preparo uma boa polenta brustolada. O fato de comerem carne na minha frente, contudo, não é algo que me incomoda ou me ofende. Fosse isso, teria que deixar de lado qualquer almoço em família, uma vez que na casa de mamãe, como na maioria dos lares do velho oeste, a carne é prato principal. Porém, em muitos momentos, é preciso controlar o impulso quase irracional de pedir: “Passa a carne, por favor!” Até mesmo porque não seria eu hipócrita a ponto de negar o quão saboroso pode ser um bom pedaço de picanha.

A cena me fez sentir um pouco a Heleninha Roitman dos embutidos. Vai que a louca resolve cair de boca no salame e depois tem que conviver com a culpa e o estigma de ser reincidente. Nesse caso, levantamos (eu e as meninas), algumas dicas de etiqueta para quem quer comer carne com vegetarianos à mesa. Uma boa saída pode ser deixar o quitute de bicho morto em um prato próximo aos pés da sua cadeira, derrubando uma vez ou outra um talher. A tática permite a você abaixar-se para recolher um garfo e voltar com a boca cheia de salame, por exemplo.

Para fazer sentido troque “dose de whisky” por “perna de salame”.

Outra saída é concentrar as carnes no armário da banheiro, pedindo licença aos convidados para ir lavar as mãos. Além de uma pessoa higiênica você passa por cult, fazendo referência direta ao Fantasma de liberdade, filme de Luis Buñuel. Existe também a tática da distração – “Olha o disco voador!” – ou mesmo a da programação mental – “Isto não é um presunto!”. Se nada funcionar, vale a sinceridade e a capacidade que temos de conviver com as diferenças, que é ainda a melhor das etiquetas. De qualquer forma, agradeço a gentileza, afinal a vida de um ex-carnívoro também está consiste em resistir um dia de cada vez. “Hoje, eu não comi carne, de novo”.

Aos amigos com carinho!

Nessa nova fase, contar com a gentileza e a preocupação dos amigos é fundamental. Alguns podem até não entender a sua escolha, mas independente de qualquer coisa, a respeitam e, mais do que isso, se preocupam para que você, por ventura, não passe fome. Então, nas festinhas e encontros sempre pode-se contar com algumas especiarias vegetarianas. Do delicioso prato de creme de batatas que separam para você antes de adicionar bacon, até as cebolas e outros legumes que levam para assar no espeto, o importante é perceber que têm pessoas dispostas a fazerem da sua escolha, um pouco das delas. Além disso, sempre é possível dividir as dificuldades da nova fase e gerar discussões sobre o tema. Em contrapartida você precisa encarar com bom humor algumas constatações que serão feitas.

A fuga das galinhas

A maior surra que levei na vida foi por tentar salvar as galinhas do sítio do meu avô de virarem o prato principal nas refeições da minha família. Na época eu devia ter uns 5 ou 6 anos e, junto com os meus primos, decidi bolar um plano para libertar o galinheiro, que estava prestes a sofrer sérias baixas. Havíamos descoberto que, naquela fatídica tarde de verão, minha avó, minha mãe e minhas tias estavam reunidas para promover uma verdadeira matança avícola.

Não pensamos duas vezes. Enquanto o matriarcado preparava os instrumentos necessários, fomos até o galinheiro e soltamos todas as galinhas. A partir daí, foi um Deus nos acuda! O milho, recém plantado, junto com a horta da minha avó, ficaram praticamente destruídos. Uma tia, na tentativa de capturar as aves fugitivas, caiu e machucou o cóxis. Eu e meus primos nos escondemos nos topos das árvores do pomar, de onde podíamos ouvir a gritaria e as promessas de uma surra iminente.

Infelizmente, nossa ação só retardou a carnificina, mas não evitou que as galinhas fossem mortas. Quando voltamos para casa, já tarde da noite, meu avô nos esperava com uma soga, dessas de amarrar as vacas, e fez a festa em nossas pernas. Depois disso, fomos para cama sem janta, de castigo. No dia seguinte, ironicamente, almoçamos frango ao molho. A tentativa frustrada de libertação animal parecia algo distante, presente em nossas memórias apenas pela dor e pelos vergões em nossas pernas.

Apesar disso degustamos o almoço com a consciência tranquila de quem tinha feito a sua parte e com a inocência infantil de que aquelas galinhas na panela não eram os mesmos seres vivos que havíamos tentado salvar menos de 24 horas antes. Puras ilusões estéticas, que seguiram me enganando ao longo da vida. Hoje, quando lembro daquele dia, percebo que por um breve momento, propus, junto com meus primos, uma revolução possível. Uma pequena revolução que tento retomar agora, a partir das minhas escolhas.