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O subtexto vegetariano em Pi e Cloud Atlas

Esse texto contém spoilers

Embora Pi e Cloud Atlas não sejam filmes específicos sobre vegetarianismo, é possível perceber em ambos um subtexto relacionado ao tema. Em Pi, vencedor de 4 Oscars, isso é mais evidente, uma vez que seu protagonista, o qual dá nome ao título, é vegetariano. Em Cloud Atlas, porém, essa perspectiva está presente nas entrelinhas da história de Sonmi-451, a qual revela uma dinâmica de consumo baseada num canibalismo forçado e inconsciente.

Perdido em alto mar com um macaco, uma zebra, uma hiena e um tigre, Pi vê-se obrigado a contrariar suas próprias crenças. Numa relação simbólica muito bem construída, ele representa na narrativa o próprio tigre. Durante toda sua jornada vê-se obrigado a ser o felino, adotando uma dieta carnívora para não morrer de fome. Porém, não faz isso sem estabelecer um embate físico e psicológico com seu animal interior. E o faz com tamanha consciência, que em nenhum momento escapa do sofrimento causado pela consequência de suas escolhas.

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No meu caso, e acredito que no de muitos que decidem parar de comer carne por questões éticas e filosóficas, essa é uma analogia que faz todo sentido. Mesmo não estando em alto mar e em uma situação extrema, constantemente temos que lidar com o tigre que nos ensinaram a ser. E digo ensinaram pois, desde crianças, aprendemos a ser carnívoros como algo natural, e não como uma escolha. Talvez venha daí o choque de algumas pessoas quando escutam as palavras: “Sou vegetariano”.

Em Pi, tudo isso ganha um toque semiótico de rara beleza, mas a problemática como um todo está presente tanto em imagens como nos diálogos. Já em Cloud Atlas, esse subtexto está quase que escondido na história de Sonmi-451, uma clone humana fabricada em série para trabalhar em tarefas consideradas inferiores, num futuro que em muito faz lembrar o “admirável mundo novo” de Huxley. Na cena que desencadeia a revolução pela libertação de sua “espécie”, Sonmi-451 vê suas companheiras serem brutalmente abatidas em uma espécie de frigorífero flutuante, no qual os clones são transformados em ração para alimentar outros clones e clientes da lanchonete onde ela era escrava.

Estão nos alimentando com nós mesmos! – Constata Sonmi-451.

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Não vou entrar aqui no mérito que, há tempos, rações avícolas vêm sendo incrementadas com os restos mortais das próprias aves, como ossos e penas moídos, forçando animais naturalmente vegetarianos a se tornarem canibais. Contudo, é impossível não estabelecer uma relação desse trecho da história com a lógica da crueldade contra os animais no atual sistema industrial onde tudo se justifica pela maximização dos lucros. E nesse caso, vale lembrar o discurso da própria Sonmi-451, o qual dá início à revolução:

 Nossas vidas não pertencem somente a nós. Estamos unidos aos outros no passado e no presente. E com cada crime, e a cada gentileza, traçamos nosso futuro.

Abaixo os trailers dos filmes. Mesmo que você não seja vegetariano, ambos valem muito a pena 😉

http://www.youtube.com/watch?v=73ZIzZfpqlo

http://www.youtube.com/watch?v=h5nJkpEvNjE

#ficaadica

Durante as minhas pesquisas semanais descobri esse blog aqui: http://veganapelosanimais.blogspot.com.br/, que traz várias informações sobre a questão da exploração animal. Além de textos e dados, tem dicas de vídeos, campanhas publicitárias, documentários, livros, etc. Pra quem se interessa pela causa vale a pena dar uma acessadinha.

Já pra quem é apreciador da boa comida, vale visitar o http://dabocapradentro.wordpress.com/ o blog da meu queridíssimo amigo/irmão Douglas Téo, um dos responsáveis pelo abandono do meu eu carnívoro. Aqui vocês vão encontrar divagações e receitas veganas e vegetarianas deliciosas. Tudo temperado com bom humor e ótimo senso crítico.

China veg e delícia no velho sacana em Porto Alegre

Na rápida passagem por Porto Alegre tive a chance de reencontrar uma amiga de tempos, a Didi, que está vegetariana o dobro de tempo que eu, ou seja, pouco mais de seis meses. Saímos para almoçar e ela me levou ao Casa Oriental, um restaurante chinês ovolactovegetariano muito simpático, que fica a rua Felipe Camarão, 61. Lugar simples e comida muito saborosa, principalmente o rolinho primavera, que tem de diversos sabores.

Durante a refeição dividimos alguns dos dramas e das delícias do estar vegetarianos. Assim como para mim, o motivo da nova conduta alimentar dela deve-se a uma maior consciência das dinâmicas que envolvem o consumo da carne e também do direito dos animais. Para ela, o ponto crucial foi a leitura do livro “Comer animais”, de Jonathan Safran Foer, que o Douglas já tinha me indicado. Já peguei emprestado com ele e devo começar a ler em breve, assim que a temporada de provas e trabalhos acadêmicos terminarem. Depois, comento aqui.

A noite, no embalo dos reencontros, fui com outra amiga querida, a Iza, para o Dirty Old Man, um barzinho todo cheio de clima, inspirado no escritor maldito Charles Bukowski, que eu adoro. Quem quiser conferir, tem o site: http://www.dirtyoldman.com.br/ Entre as opções de sanduíches tem o Pipe, que é preparado em pão baguete integral com aveia, carne de soja e quinua, mix de cogumelos, ricota temperada, tomates, pesto e picles de cebola. Leve e gostoso. Dá sustentação para mais um chope sem tirar aquela tonturinha gostosa adquirida nos anteriores.

Charles Bukowski

No fim, Porto Alegre, conhecida pela tradição gaúcha do churrasco, reservou bons momentos de cozinha vegetariana. Lógico que isso se deve muito mais a um novo olhar dado por mim sobre a cidade, contudo, é confortante saber que, pelo menos em alguns espaços de interação gastronômica, existe a delicadeza de se pensar em outros públicos. Espero voltar em breve para continuar a incursão, tanto dos reencontros como dos sabores.