Category: Surtos

So, hug me

hug-vegetarian

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Psycho-frango

Esta é uma obra de ficção. Nenhum frango foi morto para produzir esse post. Porém, só no Brasil, cerca de 365.000 foram mortos durante a uma hora em que eu procurava essas imagens e tentava, sem sucesso, fazer uma montagem decente no Photoshop. Isso com base nos dados de 2011, quando cerca de 13 milhões de toneladas de carne frango foram produzidas (reforço: só no Brasil). A conta é simples: multiplica-se por 1.000 para transformar as toneladas  em quilos, em seguida, divide-se por 4 (média do peso por animal) e divide-se pelos 365 dias do ano e pelas 24 horas do dia. Matematicamente assustador. Dados retirados em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1024045-producao-de-frangos-no-brasil-atinge-recorde-em-2011.shtml e http://vista-se.com.br/redesocial/os-numeros-da-producao-de-frango-no-brasil-em-2011/

Etiqueta à mesa, ou, o caso do salame indecente

-Michelle, não mostra o salame na mesa que ele é vegetariano – disse a Ana correndo da cozinha para sala, na tentativa de impedir aquilo que considerava uma terrível gafe culinária. Era fim de tarde de sábado chuvosa e a mesa estava posta de frente para a sacada, com uma agradável vista para o horizonte. Pão de milho quentinho com melado, café, ximia de figo e outras guloseimas. O salame, devidamente camuflado em um saquinho de tecido para que eu, que há alguns meses não como carne, não fosse tentado pelos velhos hábitos. Uma cômica gentileza da qual não pudemos deixar de rir.

Confesso que o salame é, das iguarias do mundo carnívoro, uma das que mais sinto falta, principalmente quando preparo uma boa polenta brustolada. O fato de comerem carne na minha frente, contudo, não é algo que me incomoda ou me ofende. Fosse isso, teria que deixar de lado qualquer almoço em família, uma vez que na casa de mamãe, como na maioria dos lares do velho oeste, a carne é prato principal. Porém, em muitos momentos, é preciso controlar o impulso quase irracional de pedir: “Passa a carne, por favor!” Até mesmo porque não seria eu hipócrita a ponto de negar o quão saboroso pode ser um bom pedaço de picanha.

A cena me fez sentir um pouco a Heleninha Roitman dos embutidos. Vai que a louca resolve cair de boca no salame e depois tem que conviver com a culpa e o estigma de ser reincidente. Nesse caso, levantamos (eu e as meninas), algumas dicas de etiqueta para quem quer comer carne com vegetarianos à mesa. Uma boa saída pode ser deixar o quitute de bicho morto em um prato próximo aos pés da sua cadeira, derrubando uma vez ou outra um talher. A tática permite a você abaixar-se para recolher um garfo e voltar com a boca cheia de salame, por exemplo.

Para fazer sentido troque “dose de whisky” por “perna de salame”.

Outra saída é concentrar as carnes no armário da banheiro, pedindo licença aos convidados para ir lavar as mãos. Além de uma pessoa higiênica você passa por cult, fazendo referência direta ao Fantasma de liberdade, filme de Luis Buñuel. Existe também a tática da distração – “Olha o disco voador!” – ou mesmo a da programação mental – “Isto não é um presunto!”. Se nada funcionar, vale a sinceridade e a capacidade que temos de conviver com as diferenças, que é ainda a melhor das etiquetas. De qualquer forma, agradeço a gentileza, afinal a vida de um ex-carnívoro também está consiste em resistir um dia de cada vez. “Hoje, eu não comi carne, de novo”.

Eu, Ricardo Sékula, vítima da antropofagia do consumo

“Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Philosophicamente. Unica lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os colletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz”.

É assim que começa o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (1928). Bons anos atrás, quando li pela primeira vez o texto, não tive total noção de sua profundidade, muito embora, já na época, tivesse proporcionado a mim boas reflexões. Há algumas semanas, quando retomei o texto para uma aula de Comportamento do Consumidor, uma nova perspectiva se apresentou.

Com a ideia de me tornar vegetariano cada vez mais presente e a realização de novas leituras sobre o consumo e suas dinâmicas, evidenciou-se para mim uma perspectiva da antropofagia simbólica a qual as diferentes indústrias, para não dizer ditaduras, do consumo nos submetem. E nesse contexto, a indústria da carne, seja talvez a mais bem articulada e devastadora, pois nem se quer se apresenta para nós como tal.

Assim como os europeus que chegaram às Américas, e incapazes de comer o corpo morto, devoraram-no vivo, estraçalhando e subjugando toda a cultura indígena, as grandes indústrias do consumo parecem, a todo momento, fazer o mesmo com seus consumidores, dizendo-lhes o que devem ou não ter, desejar, acreditar. A propaganda naturaliza muito bem tais costumes, mostrando-se exemplar aluna de Padre Vieira.

Mas “o espirito recusa-se a conceber o espírito sem corpo”. E nesse sentido, uma nova perspectiva emerge: não do eu como parte do cosmos, mas do cosmos como parte do eu. Digo isso, como disse Mafesolli, “confiando que certas considerações ‘inaturais’ podem ser perfeitamente adequadas ao seu tempo”. Enfim, uma noção de pertencimento a qual já não cabem mais determinadas escolhas.

Faço então o meu carnaval sem culpa, com “a experiência pessoal renovada”. Um manifesto de não consumo (por enquanto, da carne). Das antropofagias a mim dirigidas, seguirei apenas com as que não se apresentarem à luz de uma nova consciência.

Leia o Manifesto Antropófago completo aqui: http://www.fafich.ufmg.br/manifestoa/pdf/manifestoa