Essas pessoas da sala de jantar, que muitas vezes, somos nós

Desde que parei de comer carne, há mais ou menos 8 meses, tenho questionado de maneira constante algumas de minhas certezas mais profundas. Nesse tempo descobri, não sem os incômodos que revirar o baú das convicções trazem, que sempre que somos tocados por uma nova verdade temos dois caminhos: ou a ignoramos e seguimos adiante, confortáveis “do alto dos nossos postos da civilização desenvolvida”, ou assumimos o peso de nossas escolhas com tudo de bom e de difícil que elas têm a oferecer.

Essa semana, ao trabalhar em sala o texto “Os Nacirema”, de A.K. Ronney e L.P. Vore, foi possível confirmar a ideia de que aceitamos velhos hábitos como pressupostos naturais da existência. Acreditamos na soberania de nossas decisões e, convictos de de que somo livres, mal percebemos que tais escolhas não passam, muitas vezes, de repetições maquínicas que aprendemos desde a infância. É assim porque sempre foi e sempre será. Assunto encerado e nada com o que se preocupar.

Com isso, vamos acumulando “aquelas velhas opiniões formadas sobre tudo”, ao ponto de se tornarem verdades e nos transformarem, elas mesmas, no teor de seus conteúdos. Impossível não lembrar da famosa cena do filme “O fantasma da liberdade” (1974), de Luis Buñuel, onde os convidados sentam-se à mesa para fazer suas escatologias e dirigem-se à solidão do banheiro quando querem alimentar-se.

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Essa simples inversão de situações, e o absurdo inicial contido nelas, demonstram o quanto estamos presos a velhos hábitos. Costumes não questionados que preferimos entender como naturais do que colocá-los a prova. Na verdade, aguardamos anciosos por todos os benefícios de uma grande mudança, tanto quanto não estamos dispostos a lidar com as transformações necessárias para realizá-la ou que dela surgem.

“O anjo exterminador” (1962), também de Buñuel, é outro exemplo desse pensamento. No filme, um grupo de pessoas não consegue sair da sala de jantar apesar de nada aparentemente as impedir. A imobilidade das personagens, nesse caso, deve-se a mais pura e simples convenção social, da qual nem elas se dão conta.

E aí, o que temos de livre? O arbítrio? Isso vale de algo quando nossas escolhas parecem ter sempre um fundo que é exterior a nós mesmos? Assim, somos livres para seguir os costumes impostos e para não questionar a ordem que pretende-se natural das coisas. A verdadeira liberdade, porém, vem da reflexão profunda sobre nós mesmos e daquilo que escolhemos além da comodidade e da conveniência. E isso só acontece quando nos permitirmos ser sensibilizados pelo conhecimento. Metafóricamente, precisamos ter a capacidade de sair da sala de jantar.

 

O subtexto vegetariano em Pi e Cloud Atlas

Esse texto contém spoilers

Embora Pi e Cloud Atlas não sejam filmes específicos sobre vegetarianismo, é possível perceber em ambos um subtexto relacionado ao tema. Em Pi, vencedor de 4 Oscars, isso é mais evidente, uma vez que seu protagonista, o qual dá nome ao título, é vegetariano. Em Cloud Atlas, porém, essa perspectiva está presente nas entrelinhas da história de Sonmi-451, a qual revela uma dinâmica de consumo baseada num canibalismo forçado e inconsciente.

Perdido em alto mar com um macaco, uma zebra, uma hiena e um tigre, Pi vê-se obrigado a contrariar suas próprias crenças. Numa relação simbólica muito bem construída, ele representa na narrativa o próprio tigre. Durante toda sua jornada vê-se obrigado a ser o felino, adotando uma dieta carnívora para não morrer de fome. Porém, não faz isso sem estabelecer um embate físico e psicológico com seu animal interior. E o faz com tamanha consciência, que em nenhum momento escapa do sofrimento causado pela consequência de suas escolhas.

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No meu caso, e acredito que no de muitos que decidem parar de comer carne por questões éticas e filosóficas, essa é uma analogia que faz todo sentido. Mesmo não estando em alto mar e em uma situação extrema, constantemente temos que lidar com o tigre que nos ensinaram a ser. E digo ensinaram pois, desde crianças, aprendemos a ser carnívoros como algo natural, e não como uma escolha. Talvez venha daí o choque de algumas pessoas quando escutam as palavras: “Sou vegetariano”.

Em Pi, tudo isso ganha um toque semiótico de rara beleza, mas a problemática como um todo está presente tanto em imagens como nos diálogos. Já em Cloud Atlas, esse subtexto está quase que escondido na história de Sonmi-451, uma clone humana fabricada em série para trabalhar em tarefas consideradas inferiores, num futuro que em muito faz lembrar o “admirável mundo novo” de Huxley. Na cena que desencadeia a revolução pela libertação de sua “espécie”, Sonmi-451 vê suas companheiras serem brutalmente abatidas em uma espécie de frigorífero flutuante, no qual os clones são transformados em ração para alimentar outros clones e clientes da lanchonete onde ela era escrava.

Estão nos alimentando com nós mesmos! – Constata Sonmi-451.

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Não vou entrar aqui no mérito que, há tempos, rações avícolas vêm sendo incrementadas com os restos mortais das próprias aves, como ossos e penas moídos, forçando animais naturalmente vegetarianos a se tornarem canibais. Contudo, é impossível não estabelecer uma relação desse trecho da história com a lógica da crueldade contra os animais no atual sistema industrial onde tudo se justifica pela maximização dos lucros. E nesse caso, vale lembrar o discurso da própria Sonmi-451, o qual dá início à revolução:

 Nossas vidas não pertencem somente a nós. Estamos unidos aos outros no passado e no presente. E com cada crime, e a cada gentileza, traçamos nosso futuro.

Abaixo os trailers dos filmes. Mesmo que você não seja vegetariano, ambos valem muito a pena 😉

http://www.youtube.com/watch?v=73ZIzZfpqlo

http://www.youtube.com/watch?v=h5nJkpEvNjE

Boff, o piadista em: carne e circo para o povo

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Há algumas semanas o teólogo, filósofo, escritor e professor universitário, entre outras atividades que acumula, Leonardo Boff, esteve em Chapecó para uma palestra na UFSS, com o tema “O meio ambiente e a educação”. Infelizmente não pude estar presente, devido a compromissos anteriores. Porém, teve um pessoal de um grupo do qual faço parte – Vegetarianos do velho oeste – que conseguiu dar uma passadinha por lá.

Confesso que não sou um grande conhecedor da vida e obra de Boff, porém, me identifico com os discursos com os quais tive a oportunidade de ter contato. Seus estudos trazem reflexões sobre a ética, a ecologia e a espiritualidade. Além disso, Boff é uma figura politicamente engajada e um dos responsáveis pela consolidação da Teologia da Libertação, a qual interpreta os ensinamentos de Cristo com foco na libertação de injustiças sociais, políticas e econômicas.

Com um currículo e um discurso desses, era inevitável a curiosidade em saber se ele, Leonardo Boff, era vegetariano. Isso porque, dentro das questões que transpassam temas como sustentabilidade, ética e política social é impossível deixar de lado a discussão sobre o consumo da carne. Primeiro pelo fato da indústria da carne ser hoje uma das principais causas do desmatamento de matas nativas, segundo pelas discussões cada vez intensas em relação à crueldade imposta pelas agroindústrias aos animais e seus direitos, terceiro por motivos que descrevi no texto “Não, não é só pelos animais”, dois posts abaixo.

Bem, algumas pessoas do grupo foram lá e, citando dados da ONU sobre desmatamento e poluição, pesquisas de neurociência que confirmam a consciência dos animais e parte da Carta da Terra (que ele ajudou a escrever), perguntaram se ele era vegetariano. A resposta dada por Boff não poderia ser mais ridícula. Apesar de admitir que a consciência das pessoas esta cada vez maior nesse sentido e que o vegetarianismo é o nosso futuro, ele tem um bom motivo para continuar comento carne: quanto mais churrasco ele comer, menos boi produzindo gás metano haverá, contribuindo assim para menos emissões de gases tóxicos no planeta.

A minha reação à resposta do Boff

Não vale a pena nem entrar aqui na total falta de lógica e sensatez da resposta. Qualquer pessoa minimamente informada, e acredito que o próprio Boff, hão de concordar que é um argumento vazio e infundado, utilizado apenas como recurso de circo para distrair a platéia. E funcionou muito bem, uma vez que praticamente todo auditório riu e aplaudiu.

Não tenho nenhum problema em fazer piada com a condição vegetariana/vegana. Eu mesmo vivo fazendo piada sobre situações que preciso enfrentar desde que decidi parar de comer carne. Porém, fico imensamente incomodado quando um pensador do nível do Boff, em um espaço onde se propõe a discutir meio ambiente e educação, tire o foco de uma questão tão importante em prol do riso fácil, recurso que a máquina capitalista, também criticada por Boff, sabe se utilizar muito bem. E além de tudo, para fazer uma piada ruim. Pior que essa acho que só aquela de que vaca é pasto processado. Seria mais bonito admitir a própria incoerência entre discurso e prática, e dizer que come carne porque gosta.

Termino com as belas palavras do próprio Boff, feliz em estar colocando-as em prática.

O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro.

Inutilidade pública

Eis a prova definitiva de que a tosquice humana independe da sua base alimentar. Ainda bem que temos a internet para exercitar nosso poder de mídia. Caso contrário, essa belezoca aqui ficaria anônima, esquecida em algum arquivo de computador. E eu, não estaria boquiaberto, eh 😉

Não, não é só pelos animais

Enquanto aproximadamente 870 milhões de pessoas passam fome no mundo (12,5% da população mundial, segundo dados da FAO), cerca de 465 milhões de toneladas de grãos é utilizada para alimentar gado de corte. Não encontrei os números absolutos para a alimentação de suínos e aves, porém, das 40 milhões de toneladas de milho produzido no Brasil, 28% vai para alimentação de porcos, por exemplo.

Com esses dados, não é difícil deduzir que um grande percentual dos grão produzidos mundialmente não são utilizados para alimentar pessoas, mas sim, animais que fazem parte da indústria da carne. “-Ah, mas esses grãos acabam virando comida mesmo”, vai dizer algum engraçadinho. Não, não é bem assim.

Primeiro por uma questão nutricional. Os grãos oferecem muito mais energia e benefícios aos seres humanos quando consumidor diretamente. Segundo porque a distribuição feita pela industria da carne é altamente concentrada. Os EUA e a China, por exemplo, que juntos correspondem a 25% da população mundial, consomem 35% da carne bovina do planeta, 50% da carne de frango e 65% da carne suína. Ou seja, toda essa produção de grãos citada acima serve para alimentar animais que, no final, vão alimentar apenas um percentual de outros animais, nesse caso, norte americanos e chineses.

Um estudo apresentado na Sociedade Vegetariana Brasileira aponta que “se somente 0,3 % das 465 milhões de toneladas de grãos utilizados para alimentar o gado fossem utilizados diretamente para alimentar seres humanos, isto seria suficiente para salvar da desnutrição 6 milhões de crianças menores de 5 anos. Apenas 2,5% deste total seria suficiente para acabar com a fome no Brasil e 50% deste total seria suficiente para acabar com a fome no mundo.”

Por isso fico puto (e não vou pedir o perdão da palavra, pois a sensação é essa mesma) quando alguém insinua que, com tanta gente passando fome no mundo eu deveria me preocupar primeiro com o sofrimento dos seres humanos, ao invés dos animais. Se os dados acima não deixam claro o quanto minha decisão de não comer carne tem relação direta com questões como essa (e nem entrei nos méritos da sustentabilidade, pois isso rende outros posts), sigo apenas fazendo a minha parte. E deixo vocês com Gandhi.

gandhi

Algumas fontes: (1) http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/10/quase-870-milhoes-de-pessoas-passam-fome-no-mundo-diz-fao.html; (2) http://www.svb.org.br/depmeioambiente/VegetarianismoeCombateaFome.htm; (3) http://pecuaria.ruralbr.com.br/noticia/2012/12/industria-de-alimentacao-animal-estima-producao-de-62-milhoes-de-toneladas-de-racao-em-2012-3975693.html; (4) http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-09352011000100031&script=sci_arttext

Vegetariano de primeira viagem

Depois das merecidas férias, dou início aos trabalhos de 2013. Os dias no deserto foram intensos e reflexivos. As minhas paranóias de não encontrar opções vegetarianas pelo caminho e ter que acabar atacando uma lhama ou uma vicuña para não morrer de fome não se confirmaram. Aliás, comi muito bem, obrigado! Em San Pedro de Atacama a grande maioria dos restaurantes tem opções vegetarianas no cardápio e, no menu do dia, sempre consta algum prato sem carne por um preço mais em conta. Foi lá que comi uma “ensalada andina” à base de quinoa pra lá de deliciosa e a melhor massa ao pesto da minha vida.

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Bananas bolivianas, Atacama

Na Bolívia, mesmo com um roteiro mais roots, já que não tínhamos uma parada fixa, deu pra sobreviver bem comendo no caminho, em meio a paisagens devastadoramente belas. Sempre tinha opções sem carne e vários tipos de saladas. Além disso, as bananas jamais faltaram, demonstrando-se fiéis companheiras alimentícias e provendo uma energia extra para aguentar o tranco. Eu e a Fran, companheira e escudeira de viagem, sempre carregávamos algumas na mochila.

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Mercado público, Santiago, Chile

Em Santiago fomos salvos mais de uma vez pelas deliciosas ameixas, degustadas com prazer em baixo da sombra de alguma árvore, em algum parque qualquer. Já em Buenos Aires e Montevideu não teve jeito, tive que resistir bravamente às tentações dos famosos assados e partir para as massas, sanduíches e feiras de rua. Mas essa foi a parte fácil. Difícil mesmo foi ficar sem feijão. Adivinha qual foi a primeira coisa que tratamos de pedir quando chegamos no Brasil? Agora, já posso fazer aquela piadinha em versão vegetaria:

_E aí, gosta mais do pai ou da mãe?

_De feijão!

Feira de rua, Montevideu, Uruguai

Feira de rua, Montevideu, Uruguai

Só fiquei sem opções mesmo no avião. Vegetariano de primeira viagem que fui, não sabia que é possível pedir opções de comida sem carne na hora em que se compra a passagem. Mas essa é a única maneira de garantir o pão nosso de cada vôo sem presunto. Se não informar na hora da compra, nada feito. Nas compras online, porém, eu não encontrei nenhuma área para colocar essa informação. Então, se alguém souber, me avisa. E desde já fica a dica para as companhias áreas: com o público vegetariano crescendo cada vez mais, não custa colocar um ícone bem visível na hora do preenchimento para indicarmos que não comemos bicho morto.